Na Estrada: 6 meses no país do motocross
Por: Renato Dalzochio Jr
Em 02/09/2016
Treinador Cristiano Freitas relata sua experiência trabalhando meio ano nos EUA com pilotos amadores

Meu nome é Cristiano Freitas, acompanho o motocross há muitos anos e meu envolvimento mais sério com o esporte começou com o piloto Carlos Baltazar.  Acompanhei o início da carreira do João Pinho Ribeiro, que é natural da minha cidade, Torres (RS). Meu pai foi mecânico dele nas categorias amadoras. Logo em seguida comecei a treinar o piloto Carlos Baltazar#14. Em 2015 fomos Campeão Brasileiro de Motocross, Arena Velocross, vice-campeão do Arena Cross e bicampeão catarinense de motocross, todos na categoria 65cc.

Em 2016, com a ajuda de Léo Lopes (pai do piloto Enzo Lopes), embarquei rumo aos Estados Unidos para um novo projeto: treinar Kevyn de Pinho, piloto de 6 anos de idade, nascido nos Estados Unidos, porém, filho de brasileiros. História que irei compartilhar agora com todos vocês, leitores do site Cross Clube Brasil.

 

Chegada na América

Desembarquei em Fort Lauderdale, na Flórida, no dia 25 de janeiro e fui muito bem recebido pelo amigo Paulo. Por lá, permaneci três dias. No dia 29 peguei uma carona com o piloto Ramyller Alves até o estado da Carolina do Norte (mais ou menos 1.250 km de distância), para assistir uma etapa do AMA Arenacross. Chegando lá o sonho se deu início: conheci o piloto Kevyn e seus familiares, além de toda a estrutura do campeonato. Nesse fim de semana também conheci Ricky Carmichael e Austin Fokner, que estavam no box em frente ao nosso.

Com o brasileiro Ramyller Alves

 

Com Ricky Carmichael

 

Com Austin Forkner

 

A organização dos horários é algo primordial nos campeonatos americanos. O cronograma é seguido à risca. Na mesma pista onde correm os pilotos prós acontece a corrida dos amadores, com pequenas mudanças. Neste final de semana já tirei as primeiras impressões sobre as dificuldades que teria que trabalhar com o Kevyn, e já fiquei impressionado com a velocidade do Forkner, vencedor das duas baterias logo em sua estreia. O show que eles fazem na abertura é digno de um espetáculo, com fogos e apresentação dos pilotos. O estádio estava lotado. Após as corridas viajamos até a cidade de Croydon, no estado da Pensilvânia (mais 1.100 km).

Pista do AMA Arenacross na Carolina do Norte

 

Nosso primeiro compromisso importante seria em março, na Flórida, durante o Ricky Carmichael Daytona Amateur Supercross. Como em fevereiro ainda é muito frio nos Estados Unidos, com neve e as pistas estão fechadas, tivemos que adaptar uma pista de curvas em um terreno próximo a empresa da família de Kevyn. Chegamos a treinar com temperaturas de 0º.

Pista de curvas, que Cristiano adaptou na neve para Kevyn poder treinar

 

Daytona e AMA Supercross

Em março viajamos para o Ricky Carmichael Daytona Amateur Supercross, que acontece na Flórida, há uma distância de 1.550 km de Croydon. Chegando na pista já me impressionei com o tamanho do espaço destinado aos amadores, que é separado dos prós. Alguns brasileiros que eu já conhecia das pistas estavam lá, como Marcelinho Felipe, Enzo Lopes e Ramyller Alves, entre outros.

O pessoal aqui no Brasil sempre cobra dos organizadores que se tenha nos boxes água, luz e banheiros com chuveiros. Nos Estados Unidos muitos usam Motor Home ou Trailers. Claro que tem quem vai somente de Van, mas esses sempre procuram um amigo, ou um hotel. Na maioria dos campeonatos o pessoal usa gerador e tem que buscar água para abastecer seus Motor Homes, além de pagar a “singela” taxa de inscrição.

Em Daytona

 

A pista para a etapa do AMA Supercross tem realmente um alto nível técnico, sendo uma das mais longas e com um solo um pouco arenoso. Foi a única etapa, onde pude ver o James Stewart andar. Uma pena que ele sofreu uma queda bem na minha frente na sessão de costelas. Na 450 quem me chamou a atenção foram Tomac e Dungey, e na 250 Malcom Stewart e Jeremy Martin. Para os amadores, algumas sessões da pista sofrem mudanças. Foi o primeiro campeonato de alto nível que participei. Pela forma que nos preparamos, sem ter uma pista parecida próximo a nós para treinar, obtemos bons resultados.

 

Texas

Nossa viagem continuou rumo ao Texas (mais 2.000 km), para a disputa de um campeonato chamado OAK Hill Motocross, em uma pista bem arenosa. Choveu e a pista estava bem molhada. Kevyn encontrou um pouco de dificuldade com as canaletas fundas, mas foi um excelente treino para o campeonato que viria a seguir, também no Texas, o Freestone MX. Gates lotados, encontrei mais uma vez com Austin Forkner e pude ver de perto ele largar entre os 10 entre amadores mais rápidos dos Estados Unidos e vencer uma bateria de 15 minutos. Kevyn demonstrou amadurecimento durante esta competição e, apesar de ainda sofrer com as canaletas fundas, já apresentava maior consistência nos tempos. Ficamos aproximadamente 20 dias longe de casa, e em nossa viagem de volta colocamos mais 2.780 km na conta (risos).

Chegando em casa recebemos a notícia de que Kevyn estaria na final do AMA Arenacross, que acontece em Las Vegas. Assim, focamos os treinos em pistas curtas, com canaletas e costelas.  Treinamos muitas largadas e queimamos muita gasolina em sua pista de curvas e na pista de um amigo, Osvaldo Neto, ao qual também foi treinado por mim. Como a viagem até Vegas seria de aproximadamente três dias na ida e mais três na volta, o chefe de equipe decidiu que iríamos de avião.

 

AMA Arenacross em Las Vegas

Chegando em Vegas foi aquela alegria, já que conheci uma das principais cidades turísticas do mundo. A caminho do hotel já pude ver de verdade o que realmente é Las Vegas (risos).  Ficamos no hotel ao lado do ginásio onde aconteceram as corridas. As finais dos Prós aconteceram no sábado a noite e a dos amadores no domingo durante o dia. Com um traçado bem técnico e a largada na parte externa da pista, nossa apreensão foi com a previsão do tempo. Já nos primeiros treinos o Kevyn demonstrou que estava preparado para lutar por um lugar no pódio. Na corrida ele largou muito bem e conquistamos o 2º lugar. O restante do domingo foi de comemoração na piscina do hotel.

 

AMA Supercross em Las Vegas

A expectativa era muito grande para essa corrida. Mas uma forte chuva na parte da tarde, mudou muita coisa. Começando pelos boxes, que ficaram com muitas poças de água. Como é na grama, tinha muito barro e dificultou a visita nos boxes.

Nos bastidores do AMA Supercross em Las Vegas

 

A pista também ficou com muita água acumulada. A organização teve trabalho para deixar tudo certo para as corridas. As corridas perderam um pouco o brilho, com muitas quedas dos pilotos, mas o importante foi ver que quem realmente acelera em qualquer condição, principalmente na sessão de costelas, onde muito tiravam a mão. Poucos como Dungey passavam ali como se não fosse nada.

 

Classificatórias Loretta Lynn’s 2016

A classificatória para o Loretta Lynn’s seria o nosso próximo compromisso importante.  Próximo a cidade da final ficava a base da pista Doublin Gap MX, onde foi disputada nossa classificatória. Participamos de três categorias, que eram a PW, a 50 (4 a 6 anos) especial e a 50 (4 a 6 anos) Limited. Lembrando que só classificma para a final os seis primeiros de cada categoria e que em 2015 Kevyn classificou-se em 6º lugar.

Com a pista muito bem tratada, molhada e gradeada, se deu início as baterias. Kevyn teve um pouco de dificuldade no início devido a pista estar um pouco pesada, mas obteve excelentes resultados, inclusive em uma bateria largou em último e recuperou posições.  Ele fez em todas as categorias 3º lugar na geral, classificando-se para o Loretta Lynn’s 2016.

Cristiano e a família de Kevyn de Pinho celebram a classificação do piloto para as finais do Loretta Lynn's 2016

 

Treinos

Eu sempre exigi muito de meus pilotos, talvez isso seja um erro, mas sempre obtive bons resultados e poucos amigos (risos)... Agora o próximo passo era decidir em qual categoria correr, com qual moto e treinar em pistas de solo arenoso, parecidas com a do Loretta.

Após a classificatória e de férias da escola, intensifiquei os treinos com o Kevyn, mas ainda não tinha encontrado um solo ao qual eu queria treinar, que seria em uma pista de areia. Mas num final de semana a sorte sorrio para nós e encontramos o tal lugar em um sábado e fomos treinar no domingo com mais dois pilotos, Osvaldo Neto e Bill. Treinar na areia em meu ponto de vista é: dar noções básicas de posicionamento ao piloto e deixar com que ele se familiarize ao terreno. Deixar que o piloto tenha “horas de voo” em um solo ao qual não está acostumado a pilotar. Não adianta encher a cabeça dele de técnicas e querer cobrar velocidades. Habilidade de andar na areia vem com o tempo de prática e assim vamos ajustando o posicionamento do piloto.

Em um dia de treino, com os pilotos Osvaldo Neto (27) e Kevyn de Pinho (2)

 

Após cinco meses de parceria, faltando menos de 30 dias para a final do Loretta Lynn’s, nossa parceria chegou ao fim. Kevyn e sua equipe decidiram andar na categoria PW, na qual ele se sagrou campeão. Agradeço muito pela oportunidade e desejo sucesso a ele.

 

Osvaldo Neto #

Após o desligamento com a equipe do Kevyn, passei alguns dias na casa do piloto Osvaldo Neto, o qual demonstrou em 30 dias uma melhora significativa em sua pilotagem. Piloto que tem um futuro imenso pela frente no motocross. Sou eternamente grato ao piloto e sua família pela hospedagem em sua casa e por toda ajuda que me deram nos Estados Unidos.

 

AMA Motocross

Após a decisão de voltar ao Brasil, aproveitei para realizar mais um sonho, ir em uma etapa do AMA Motocross, que aconteceria na cidade de New Berlin, no estado de Nova Iorque, distante quatro horas de onde eu estava residindo. Mas uma semana antes da etapa sofri uma fratura no tornozelo. Porém, com a ajuda do pai do Osvaldo Neto, seu Mauro, consegui realizar este sonho. Com duas pit bikes viajamos rumo a New Berlin.

Chegamos cedo na pista e mesmo de gesso subi na pit bike igual uma criança e fui conhecer a pista. Pista bem natural, com subidas e descidas. Quem já foi no Brasileiro de Motocross em Carlos Barbosa pode imaginar. A diferença é que o público tem acesso em qualquer parte do circuito, com túneis que cortam a pista, você tem inúmeros lugares para assistir as corridas. Alguns fãs chegam na pista na quarta feira e com motor homes acampam em lugares que de dentro de sua sala conseguem acompanhar as corridas.

No AMA Motocross em Unadilla

 

Os treinos começaram e a pista estava bem molhada, formando profundas canaletas e dificultando muito a pilotagem, mesmo dos prós. A organização só usa o maquinário em situação realmente crítica, já que profundas canaletas e grandes buracos são normais nas pistas americanas. Eles somente molham a pista quando a mesma começa a secar.

Na 450 quem me chamou atenção Roczen, Tomac e Musquin. Esses três pilotos possuem tocada, consistência e preparo físico diferenciados. Já na 250 quem chamou a atenção foi Austin Forkner pela consistência, Alex Martin pela velocidade e Adam Cianciarulo pelas boas largadas.

 

O Legado

O que levo destes seis meses nos Estados Unidos é que, tendo condições e foco, conseguiremos aqui no Brasil formar um piloto que tenha chances reais de brigar entre os cinco primeiros nos campeonatos amadores americanos. Claro que temos que prestar atenção nas diferentes categorias e idades que eles têm.

Se você tem um sonho, corra atrás dele, que o mundo conspira a seu favor. Deixo aqui o meu agradecimento a todos que me ajudaram antes durante e depois da viagem, Muito Obrigado.

Para quem quiser de ter mais informações sobre como ir e quais os campeonatos, deixo aqui minhas redes sociais para contato. Instagram: @cctraining. Facebook: Cristiano Freitas. Espero que tenham gostado, abraços.

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